Como ler o resultado

Esta página mostra a tela que aparece quando o teste de leitura termina, com cada parte dela apontada e explicada. Todos os números que você vai ver aqui são fictícios: foram inventados para ensinar a leitura da tela, e não são medida de nenhuma pessoa real.

Quando a pessoa termina de ler as vinte frases, o aparelho faz as contas e mostra uma tela cheia de números. É natural olhar para aquilo e não saber por onde começar.

Então comece por aqui: você não precisa olhar todos os números. A maior parte deles está na tela apenas para que outra pessoa possa conferir a conta mais tarde, se for preciso. Para usar o exame no dia a dia, três passos bastam.

Os quatro passos, na ordem

  1. Olhe primeiro o número grande, dentro da moldura azul, no alto da tela. Ele se chama inclinação e vem numa unidade que se lê “milissegundos por bit”, abreviada como ms/bit. Ele diz quanto a leitura ficou mais lenta a cada grau a mais de dificuldade da palavra.
  2. Agora olhe a linha logo abaixo dele, com um selo e dois números. É a faixa, e ela é tão importante quanto o número grande — em alguns casos, mais.

    O número grande não é exato: ele é o centro de uma faixa, calculado junto com ela. O que o exame consegue afirmar é que o valor verdadeiro está em algum lugar dentro dessa faixa. O selo diz o que dá para fazer com ela:

    medida precisa — a faixa é estreita e não alcança o zero. Dá para falar do tamanho do efeito, e o número grande pode ser anotado na ficha.

    faixa larga — a faixa não alcança o zero, então o efeito existe, mas ela é larga demais para se dizer o tamanho. Anote a faixa inteira, e não só o número do meio.

    sem conclusão — a faixa alcança o zero. Aqui o exame não conseguiu concluir nada, e o número grande não deve ser anotado como resultado. Isso não quer dizer que falte efeito: quer dizer que a medida não alcançou.

    O botão detalhar, ao lado do selo, abre a explicação inteira.
  3. Depois olhe as duas caixinhas com bolinha colorida. Elas não são resultado. Respondem a outra pergunta, escrita acima delas: dá para confiar no número de cima?

    Se as duas bolinhas estiverem verdes, dá para confiar. Se qualquer uma estiver vermelha, o exame não vale e a pessoa precisa refazer — e não adianta discutir o número de cima.
  4. Pronto, acabou. Todo o resto da tela fica escondido atrás de três botões, e você só precisa abri-los se alguma coisa parecer estranha ou se alguém pedir para conferir a conta. O terceiro deles, a conta aberta, mostra uma linha por palavra lida e fecha com a aritmética que produz o número grande — para quem quiser refazer a conta à mão ou em planilha.
O erro mais comum ao ler esta tela é anotar o número grande e ignorar a faixa. Ele está sempre dentro dela, porque é o centro dela — então “estar dentro” não confirma coisa alguma. Um exame curto costuma dar faixa larga, e faixa larga significa que o instrumento serve para comparar conjuntos de pessoas, e não para dar o número exato de cada uma.

Vale a comparação com um exame de laboratório, porque a estrutura é a mesma e você já está acostumado com ela.

Quando chega um hemograma, vem o valor da hemoglobina — e vem também, em outro lugar da folha, a informação de se a amostra prestou. Se a amostra chegou hemolisada ao laboratório, ninguém fica interpretando o valor da hemoglobina: colhe-se de novo, porque aquele número não significa nada.

As duas bolinhas fazem exatamente esse papel. Elas dizem se a amostra prestou. Um número tirado de uma coleta ruim é pior do que nenhum número, porque dá a impressão de informar.

Caso 1 — um resultado que se pode ler

Participante ARA-4K7M · 71 anos, 8 de estudo, feminino · conjunto 1, lista A · 20 frases · 160 palavras analisadas · verificação de leitura: 5 de 5 1

O resultado — quanto a dificuldade da palavra pesa na leitura 2
7,90 ms/bit
a cada grau a mais de dificuldade, a leitura ficou 7,90 milésimos de segundo mais lenta
medida precisa entre 6,20 e 9,60 ms/bit detalhar 3

Dá para confiar nesse número? 4

a reta descreve bem a leitura
0,49
a pessoa estava lendo
5 de 5

Padrão dentro do esperado 5

O tempo de leitura acompanhou a dificuldade das palavras: o esforço subiu junto com a surpresa. É o padrão de quem está com a previsão de linguagem funcionando.

O que fazer: Nenhuma providência a partir deste exame. Havendo queixa de memória, repetir em seis a doze meses.

Ver os outros números 6 Ver mapa das palavras 7
  1. O cabeçalho, na primeira linha. Traz quem fez o exame, quantas palavras entraram na conta e como foi a verificação de leitura.

    Vale entender de onde saem as 160 palavras. O exame tem 20 frases, e cada frase tem cerca de nove ou dez palavras. Desse total, o programa tira automaticamente a primeira palavra de cada frase (porque o cálculo de surpresa não funciona ali, como explica a página a surpresa em bits) e tira também qualquer palavra em que o tempo tenha sido implausível — abaixo de 150 ms, que é rápido demais para alguém ter lido, ou acima de 3.000 ms, que indica que a pessoa se distraiu. O que sobra é o que entra na conta. Se sobrarem menos de 40 palavras, o exame se recusa a dar resultado.
  2. A inclinação. Este é o resultado do exame. O valor 7,90 quer dizer o seguinte, em português claro: cada bit a mais de surpresa numa palavra custou a esta pessoa 7,90 milissegundos a mais de tempo de leitura. Se uma palavra tinha 10 bits a mais de surpresa do que outra, essa pessoa gastou cerca de 79 ms a mais nela.

    E agora vem o aviso mais importante desta página inteira. Não existe um valor certo com o qual comparar esse número. Ninguém no mundo publicou uma faixa de referência para esta medida — nem no Brasil, nem fora dele. Criar essa faixa é justamente o objetivo deste trabalho de doutorado. Portanto não se pode dizer que 7,90 seja um valor bom ou um valor ruim, e quem disser isso hoje está inventando.

    O que se sabe, e que já é alguma coisa, é a direção em que o número se move. Quanto mais a previsão de linguagem da pessoa está funcionando, maior tende a ser o número. Quando essa previsão para de entregar, o número desce em direção a zero. E zero teria um significado bem concreto: significaria que a pessoa gastou o mesmo tempo na palavra óbvia e na palavra impossível — ou seja, a dificuldade da palavra não pesou nada na leitura dela.

    Por isso o número só ganha sentido quando é comparado com alguma coisa. E há só duas comparações legítimas: com a mesma pessoa em outro dia, para ver se mudou; ou com outras pessoas de idade e escolaridade parecidas. Essa segunda comparação ainda não existe em lugar nenhum, e é exatamente o que esta pesquisa vai construir.
  3. A linha pequena embaixo do número grande: o valor bruto e o efeito de posição. Aqui está o motivo de existir essa linha.

    A última palavra de qualquer frase custa mais tempo de leitura só por ser a última: é o momento em que a pessoa fecha o sentido do que leu, e isso vale para todo mundo, saudável ou não. Acontece que a palavra final também costuma ser a mais surpreendente da frase. Se ninguém separar as duas coisas, o custo de fechar a frase entra na conta disfarçado de custo de surpresa, e a medida sai inflada — aqui, ela passaria de 7,90 para 16,40.

    O exame resolve isso medindo a inclinação só nas palavras que fecham frase. Todas elas carregam o custo de fechamento — nas três versões: esperada, possível e absurda —, então ele entra igual em todas e se cancela na comparação. São também as únicas palavras cuja dificuldade foi escolhida de propósito. Ao citar o resultado, use o número grande. O valor calculado sobre todas as palavras fica à vista só para comparação: ele é decidido em mais de 90% por palavras que ninguém manipulou, e por isso não serve de resultado.
  4. As duas caixinhas com bolinha, que chamamos de porteiros. Elas não são resultado: elas dizem se o resultado presta.

    A da esquerda, a reta descreve bem a leitura, verifica se os tempos daquela pessoa formaram mesmo um padrão, ou se saíram espalhados a esmo. A da direita, a pessoa estava lendo, mostra quantas das cinco perguntas de verificação feitas durante o teste ela acertou.

    Verde nos dois, pode ler o número de cima. Um vermelho que seja, não confie e peça para refazer.
  5. O veredito, na faixa colorida. Ele classifica a medida, e nunca a pessoa. São quatro saídas possíveis, listadas no fim desta página, e nenhuma delas diagnostica coisa alguma.
  6. O botão “ver os outros números”, que vem fechado. Atrás dele estão a velocidade média de leitura, o custo de fechamento de frase e o custo na palavra-alvo. Esses três existem porque uma banca ou um revisor pode perguntar por eles. No atendimento do dia a dia, pode ignorar.
  7. O botão “ver mapa das palavras”, também fechado. Ele abre a lista de todas as palavras lidas, uma por uma, com o tempo de cada uma. Serve para auditoria: para achar em qual palavra exata a pessoa travou. Só vale a pena abrir quando alguma coisa no resultado parecer estranha.

Caso 2 — um resultado em que não se pode confiar

Participante ARA-9QTB · 68 anos, 11 de estudo, masculino · conjunto 1, lista C · 20 frases · 121 palavras analisadas · 39 descartadas por tempo (31 rápidas demais, 8 longas demais) · verificação de leitura: 2 de 5

O resultado — quanto a dificuldade da palavra pesa na leitura
0,60 ms/bit
a cada grau a mais de dificuldade, a leitura ficou 0,60 milésimos de segundo mais lenta
sem conclusão entre −4,10 e 5,30 ms/bit detalhar

Dá para confiar nesse número?

a reta descreve bem a leitura
0,05
a pessoa estava lendo
2 de 5

Coleta não confiável

O exame não produziu dados suficientes para ser lido. Isso não diz nada sobre a pessoa: diz que a coleta falhou.

O que fazer: Repetir o exame, em ambiente silencioso e sem pressa.

Repare que as duas bolinhas estão vermelhas, e que o veredito nem chega a interpretar a inclinação. Ele diz apenas que a coleta falhou.

Agora imagine que os porteiros não existissem, e que alguém lesse aquele 0,60 ms/bit apagado como se fosse um resultado válido. Seria um valor bem próximo de zero, e o exame o classificaria como “padrão que merece avaliação”. Ou seja: mandaria ao neurologista uma pessoa que simplesmente não estava lendo o texto.

Repare no cabeçalho para entender o que aconteceu nesta coleta: das palavras da sessão, 39 foram descartadas por tempo, sendo 31 delas rápidas demais — abaixo de 150 ms, tempo em que ninguém lê nada. Essa pessoa estava batendo na tela para chegar ao fim. E as perguntas de verificação confirmam a mesma história: acertou apenas 2 de 5.

Este é o erro que os porteiros existem para impedir, e vale guardar a frase inteira: um número baixo não significa nada se a pessoa não estava lendo.

Um falso alarme aqui não é um erro pequeno. Ele significa dizer a uma pessoa de 68 anos que talvez haja algo errado com a memória dela, quando o único problema foi ela ter tocado a tela rápido demais.

Por que errar as perguntas não anula o exame sozinho

Esta é a regra do exame que mais causa dúvida, e ela tem uma razão concreta.

A pergunta de verificação tem duas opções: a palavra tal apareceu nesta frase? sim ou não. Quem leu com atenção mas não se lembra da palavra é obrigado a chutar — e chute acerta metade das vezes.

Então um erro ali pode significar duas coisas completamente diferentes, e a pergunta não distingue uma da outra:

  1. A pessoa não estava lendo. Tocava a tela para chegar ao fim.
  2. A pessoa leu, e não lembrou. Acompanhou o texto do começo ao fim, mas a palavra não ficou na memória.

E aqui está o problema: a pessoa com queixa de memória é exatamente quem este exame quer medir. Se errar as perguntas anulasse o exame, ele jogaria fora justamente a pessoa que interessa — e passaria limpo só em quem não tem queixa nenhuma.

Por isso a regra é: a verificação sozinha nunca anula. Ela só anula quando o relógio concorda com ela — ou seja, quando além de errar as perguntas, mais de 5% das palavras tiveram tempo impossível. Duas evidências fracas apontando para o mesmo lado valem o que nenhuma delas vale sozinha.

Quando a verificação falha sem tempo impossível, o exame não anula e também não conclui: ele diz “não foi possível concluir” e pede para repetir. É a resposta honesta, porque ali de fato não dá para separar um achado real de desatenção.

Caso 3 — o achado que o estudo procura

Participante ARA-2XPD · 74 anos, 9 de estudo, feminino · conjunto 1, lista B · 20 frases · 160 palavras analisadas · verificação de leitura: 4 de 5

O resultado — quanto a dificuldade da palavra pesa na leitura
1,20 ms/bit
a cada grau a mais de dificuldade, a leitura ficou 1,20 milésimos de segundo mais lenta
faixa larga entre 0,30 e 2,10 ms/bit detalhar

Dá para confiar nesse número?

a reta descreve bem a leitura
0,11
a pessoa estava lendo
4 de 5

Padrão que merece avaliação

A coleta foi boa, mas o tempo de leitura quase não acompanhou a dificuldade das palavras: a palavra difícil custou quase o mesmo que a palavra óbvia. ISTO NÃO É UM DIAGNÓSTICO e não afirma que exista comprometimento cognitivo.

O que fazer: Levar este resultado a um médico (neurologista ou geriatra) ou a um neuropsicólogo.

Compare esta tela com a do caso 2, porque a diferença entre as duas é o coração do método.

Nos dois casos a inclinação ficou baixa — 0,60 num, 1,20 no outro — e a bolinha da esquerda está vermelha nos dois. O que mudou foi a bolinha da direita. Aqui ela está verde: a pessoa acertou 4 das 5 perguntas de verificação, e o tempo de leitura dela foi normal, sem palavras descartadas. Ou seja, ela estava lendo de verdade. E mesmo lendo de verdade, a linha dela ficou quase plana.

No caso 2, havia uma explicação banal para o número baixo: a pessoa não tinha lido. Aqui essa explicação não está disponível, e é por isso que o achado se sustenta. Uma linha plana, sozinha, seria ambígua e não permitiria concluir nada; acompanhada de uma verificação de leitura boa, ela deixa de ser ambígua.

E mesmo assim, este resultado não diagnostica nada. Isso precisa ficar claro para quem entrega o resultado à pessoa.

Uma linha plana pode vir de várias coisas, e algumas delas são completamente tratáveis: depressão, sono ruim, efeito de remédio, problema de tireoide, audição ou visão comprometidas. O exame serve para apontar quem vale a pena investigar. Quem investiga, e quem diagnostica, é o profissional de saúde.

As quatro saídas possíveis

  1. Coleta não confiável. Aparece quando sobraram poucas palavras para a conta, ou quando muitas foram descartadas por tempo implausível, ou quando a verificação de leitura falhou junto com tempos implausíveis. Não diz nada sobre a pessoa — diz que a coleta não serviu. Conduta: refazer o exame.
  2. Padrão dentro do esperado. Aparece quando a linha subiu com a dificuldade das palavras e as duas bolinhas passaram. Conduta: nenhuma providência a partir deste exame. Havendo queixa de memória, repetir daqui a seis ou doze meses.
  3. Não foi possível concluir. Aparece quando a linha ficou plana, mas a verificação de leitura não confirmou que a pessoa estava acompanhando o texto. Nesse caso não há como separar um achado verdadeiro de simples desatenção. Conduta: refazer o exame em ambiente calmo, sem pressa.
  4. Padrão que merece avaliação. Aparece quando a linha ficou plana e a coleta passou em tudo. Conduta: levar este resultado a um médico — neurologista ou geriatra — ou a um neuropsicólogo. Continua não sendo diagnóstico.

Compare com atenção as duas últimas saídas, porque elas são parecidas de um jeito perigoso.

Nas duas, a linha ficou plana. Nas duas, o número da inclinação é baixo e parecido. A única coisa que muda entre elas é se a pessoa estava lendo.

Quando a verificação de leitura falha, o exame diz “não foi possível concluir”, porque uma linha plana pode ser apenas desatenção. Quando a verificação passa, essa explicação cai por terra, e só aí o exame diz “merece avaliação”.

O mesmo número, e duas condutas completamente diferentes. É exatamente para isso que servem as cinco perguntas que aparecem durante o teste. Sem elas, o exame não teria como distinguir um caso do outro.

De onde vem o veredito, e por que ele é provisório.

As faixas que decidem qual das quatro saídas aparece são provisórias. Elas foram tiradas de um punhado de sessões de um único adulto sem queixa cognitiva — o que é pouquíssimo, e nós sabemos disso.

Não existe norma populacional para esta medida, aqui nem em lugar nenhum do mundo. Produzi-la é o objetivo deste trabalho. Até que ela exista, nenhum resultado deste exame deve ser lido como classificação de ninguém.